Com aula de Suárez, o Grêmio usou o clássico para arrumar a casa (de novo)
Time tricolor teve mais atitude e contou com apresentação de gala do atacante uruguaio para vencer por 3 a 1, retomar o fôlego e deixa o Inter à deriva.

Na mitologia Gre-Nal, que faz questão de contar em números cada confronto e não raramente apresenta uma alcunha específica para algum clássico especial, o embate desse domingo bem poderia ter sido propagandeado (?) como o "Gre-Nal da Lanterna dos Afogados". Em momento atribulado, ambos os times chegavam com uma sequência tenebrosa de resultados, correndo o risco de a temporada, na prática, acabar ainda em maio.
E, como vem sendo costume nos últimos anos, o Grêmio usou o clássico para arrumar a casa (ou pelo menos para mantê-la em pé). Exceto por raros reveses (alguns doídos, é verdade), os tricolores vêm aproveitando o encontro com o combalido rival para colocar o vagão nos eixos quando o descarrilamento total parece questão de tempo. E dessa vez ainda lançaram mão de uma dose de provalecimento, como dizem os antigos: tinham em campo o maior camisa 9 do futebol mundial nos últimos quinze anos.
A despeito da tensão e das nefastas nuvens que pairavam sobre ambos os times na Arena, a partida começou com um nível de atrevimento surpreendente para um Gre-Nal, inclusive com o Internacional criando boas chances e jogando seus habituais vinte minutos de algo remotamente semelhante a futebol. Essa aparente fruição do espetáculo e todo o equilíbrio que se anunciava foram atravessados como o corte de uma lâmina quando Suárez recebeu na entrada da área, fez um FIRULETE ameaçando com o calcanhar e abriu cancha para mandar uma pomba incandescente na gaveta do sempre solícito (mesmo quando inocente) arqueiro Keiller.
Porque é isso que fazem os craques que jogam nas posições mais pontiagudas do gramado: eles arremetem contra a normalidade e testam todas as probabilidades para fazer com que o jogo se molde ao seu próprio desejo. Depois disso, com o Grêmio podendo postar-se em seu campo e deixando que a bola ficasse nos pés do Inter, e lá permanecendo até que estourasse a si própria por não aguentar tão tedioso destino, mais da metade da milonga já estava bailada.
As rédeas do clássico foram tomadas pelo Grêmio graças ao abismo que separava Luiz Suárez dos outros companheiros de profissão presentes em campo -- além de sacar da guaiaca o lance que ditou o rumo do jogo, também deu uma assistência preciosa para o terceiro gol e passou a tarde desanuviando espaços improváveis. Mas não apenas por isso. Também em atitude o Grêmio superou o Inter -- e, bem sabemos, a história dos sobreviventes será contada pelo homem que venceu a última dividida de bola em um Gre-Nal válido pela primeira fase do Gauchão. É essa proverbial lição que o jovem lateral Thauan Lara ainda tem tempo para aprender, desde que a jogada do segundo gol passe as próximas trezentas noites lhe assombrando, em uma repetitiva fantasmagoria pedagógica.
Como uma garrafa de refrigerante vazia boiando nas águas do Guaíba, depois daquele momento o Internacional já estava entregue ao mínimo vento da noite de Porto Alegre, como demonstrou o próprio técnico Mano Menezes, que tentou reagir à expulsão de Kannemann promovendo lunáticas mudanças que culminaram no terceiro gol gremista e no contundente flerte com o fiasco. Enquanto o Grêmio conseguiu, ao menos no momento, retomar o fôlego para o futuro imediato, o Internacional espera para ser resgatado -- e hoje nem a própria direção do clube parece saber para que lado fica o norte e para que lado fica o sul.














