Homens "treinam" para espancar ou matar mulheres que disserem "não"; veja vídeo
Conteúdos viralizaram nas redes sociais com a frase “Treinando caso ela diga não” e mostram homens simulando socos, chutes e facadas; Comissão da Câmara quer responsabilização criminal dos autores

A Polícia Federal abriu uma investigação para apurar a divulgação de vídeos na internet com discurso de ódio contra mulheres. As gravações mostram homens encenando pedidos de namoro ou casamento e, em seguida, simulando agressões físicas, como espancamentos e até mesmo facadas, caso sejam rejeitados.
Os conteúdos viralizaram nas redes sociais com a legenda “Treinando caso ela diga não”. Nos vídeos, os autores aparecem simulando reações violentas, como socos, chutes e até golpes com faca diante da possibilidade de rejeição.
A circulação das publicações ocorreu justamente na semana em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, o que ampliou a repercussão e gerou forte reação nas redes.
Diante do caso, a Polícia Federal instaurou um inquérito para investigar a chamada trend “caso ela diga não”. Segundo a corporação, perfis que divulgavam esse tipo de conteúdo já foram removidos das redes sociais e os responsáveis podem ser responsabilizados.
Após a repercussão, alguns dos vídeos deixaram de aparecer nas buscas ou foram retirados das páginas onde haviam sido postados. Não há confirmação se as publicações foram apagadas pelos próprios autores ou se foram removidas pelas plataformas.
Paralelamente à investigação, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados marcou para esta terça-feira a votação de um requerimento que pede à Procuradoria-Geral da República a apuração e responsabilização criminal dos envolvidos na criação e na divulgação dos vídeos.
O pedido ocorre em meio ao aumento da pressão por punição para casos de apologia à violência em publicações na internet que simulam agressões físicas.
A circulação desse tipo de conteúdo acontece em um momento de escalada da violência contra mulheres no país e de aumento de casos tentados e consumados de feminicídio.
Levantamento do Conselho Nacional de Justiça mostra que, no ano passado, o Poder Judiciário recebeu quase 12 mil casos de feminicídio em todo o Brasil.
Especialistas alertam que a banalização da violência nas redes sociais contribui para agravar ainda mais o cenário.
“Esse tom jocoso, ele é extremamente perigoso, porque ele banaliza a violência, ele normaliza a violência e não nos leva a sério, não leva a vontade da mulher a sério”, afirmou uma especialista ouvida na reportagem.
Um estudo do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também aponta o crescimento de conteúdos misóginos na internet.
O levantamento identificou, em 2024, 137 canais que veiculavam conteúdo com discurso de ódio, desprezo, aversão ou controle sobre mulheres. Juntos, eles somavam 19,5 milhões de inscritos.
Segundo o estudo, 123 desses canais continuam disponíveis nas plataformas neste ano, acumulando mais de 23 milhões de inscritos.
Para especialistas, a responsabilização precisa envolver diferentes atores.
“As responsabilidades, elas têm que ser divididas e compartilhadas. O poder público há de regular tudo isso, né? A internet não é terra de ninguém, a internet deve ser regulada, ela deve ter legislações específicas que punam todos esses compartilhamentos, que punam a internet e que seja responsabilizada por conteúdos que incitam o ódio, que incitam a violência”, afirmou.
Em nota, o TikTok informou que os conteúdos citados violam as diretrizes da comunidade e foram removidos da plataforma assim que identificados.
Segundo a empresa, a rede social trabalha para detectar possíveis publicações semelhantes e afirma que a prioridade é manter a comunidade segura e protegida.

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