Investigação desvenda esquema de fraudes na Comurg; veja como funcionava
Entre os investigados estão o ex-presidente da Comurg, Alisson Borges, os ex-diretores Adriano Renato Gouveia e Edmar Ferreira da Silva, além do fiscal de contratos Nilton César Pinto

Uma investigação da Polícia Civil de Goiás identificou um suposto esquema de fraudes em contratos da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), envolvendo direcionamento de licitações, pagamentos antecipados por serviços não executados e repasses sem respaldo em notas fiscais. Ao todo, onze pessoas foram indiciadas, entre ex-dirigentes da estatal e empresários que venceram concorrências públicas.
Entre os investigados estão o ex-presidente da Comurg, Alisson Borges, os ex-diretores Adriano Renato Gouveia e Edmar Ferreira da Silva, além do fiscal de contratos Nilton César Pinto. Também foram indiciados os empresários José Teodoro de Oliveira, da Comercial J. Teodoro, e Raimundo Raírton de Assumpção, da Jim Comercial e Atacadista, empresas que, segundo a polícia, teriam sido beneficiadas de forma reiterada em processos licitatórios.
As informações foram reveladas inicialmente pela jornalista Fabiana Puccinelli, do Jornal Popular.
De acordo com o inquérito, o núcleo do esquema consistia no repasse de informações sigilosas às empresas antes das licitações, o que teria comprometido a competitividade dos certames. Em um pregão eletrônico realizado em 2022 para a compra de materiais de construção, a J. Teodoro e a Jim Comercial venceram os lotes ao apresentarem lances exatamente iguais aos valores estimados pela Comurg — dados que, segundo as regras, não deveriam ser conhecidos previamente pelos participantes.
A polícia afirma que outros concorrentes desistiram das disputas, enquanto as duas empresas se alternavam estrategicamente para garantir os contratos. Em uma concorrência para fornecimento de blocos de concreto, ambas apresentaram o menor valor inicial, de R$ 6,10 por unidade. Após a saída da J. Teodoro, a Jim Comercial venceu com o preço de R$ 2,99. Já em outra licitação, para fornecimento de divisórias de madeira, restaram apenas as duas empresas; a Jim Comercial interrompeu os lances, e a J. Teodoro venceu com o valor de R$ 112 por unidade — exatamente o preço sigiloso previsto no edital.
Com os contratos firmados, as empresas teriam passado a receber pagamentos sem a correspondente entrega dos produtos ou serviços. Um dos exemplos citados no inquérito aponta que a J. Teodoro recebeu um PIX de R$ 1,3 milhão da Comurg, embora a nota fiscal emitida fosse de R$ 338 mil. Em outra operação, uma nota de pouco mais de R$ 114 mil resultou em um pagamento de R$ 3,1 milhões — valor cerca de 27 vezes superior ao registrado formalmente.
A partir da análise do fluxo financeiro, a polícia passou a investigar a destinação dos recursos. A suspeita é de que o dinheiro desviado tenha sido repartido entre empresários e agentes públicos. Durante uma operação realizada em 2024, foram apreendidos R$ 430 mil em espécie na residência de Alisson Borges.
A quebra dos sigilos bancário e fiscal revelou ainda que a Jim Comercial arcou com despesas de aproximadamente R$ 143 mil em materiais de construção, móveis, acabamentos, piscina e jacuzzi em uma obra realizada na chácara do ex-presidente da Comurg, em Bela Vista. As notas fiscais desses gastos foram encontradas na casa do pai de Alisson Borges, que também era funcionário da companhia.
O fiscal de contratos Nilton César Pinto também teria tido despesas pessoais custeadas pela Jim Comercial, incluindo a compra de pisos e insumos para uma obra particular. Em depoimento à polícia, Nilton afirmou que solicitou o pagamento a um funcionário por estar fora da cidade, negando relação entre a despesa e a Comurg.
Além dos contratos com fornecedores privados, a investigação alcançou uma obra executada diretamente pela Comurg para a prefeitura: a construção do muro do Cemitério Parque. O contrato, firmado sem licitação, previa o pagamento de mais de R$ 5,8 milhões. Apenas cerca de metade da obra foi executada, mas a companhia recebeu de forma antecipada quase R$ 3 milhões, segundo a polícia.
À época, o secretário responsável pela gestão dos cemitérios municipais era Nélio Fortunato. Em depoimento, ele afirmou que os pagamentos antecipados ocorreram por determinação do então prefeito de Goiânia, Rogério Cruz. O ex-prefeito negou qualquer autorização para pagamentos irregulares ou interferência em contratos administrativos e disse que a responsabilidade pelos atos cabe ao secretário responsável.
A defesa de Nélio Fortunato afirmou que eventuais questionamentos administrativos estão sendo analisados dentro do devido processo legal e que não há denúncia ou condenação até o momento. Já a defesa de Alisson Borges declarou que a Justiça determinou a suspensão do processo e sustentou que não existem elementos que indiquem participação do ex-presidente da Comurg em conluio, fraude ou obtenção de vantagem indevida.
A Polícia Civil informou que tentou ouvir Alisson Borges, que não compareceu à delegacia. O ex-diretor Adriano Gouveia esteve presente, mas optou por permanecer em silêncio. Edmar Ferreira da Silva não compareceu para prestar depoimento na data marcada.
A reportagem não conseguiu contato com Adriano Gouveia e Edmar Ferreira da Silva. As empresas Jim Comercial e Comercial J. Teodoro também não responderam às tentativas de contato.

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