Goiás monta força-tarefa contra El Niño após área queimada disparar 23%
Estado já soma quase 139 mil hectares atingidos pelo fogo em 2026 e se prepara para cenário de seca, crise hídrica e aumento de doenças respiratórias

O Governo de Goiás montou uma força-tarefa para enfrentar o avanço das queimadas e os possíveis efeitos de um El Niño de forte intensidade no Estado. Apresentado nesta terça-feira (18), o Gabinete de Ações Integradas (GAI) reúne órgãos estaduais e instituições parceiras para monitorar a estiagem, prevenir incêndios, acelerar o atendimento às emergências e recuperar áreas atingidas pelo fogo. A mobilização ocorre em meio a um salto de 23,3% na área queimada em Goiás neste ano.
Até o último domingo (16), o fogo havia atingido 138.908 hectares no território goiano. No mesmo período de 2025, foram 112.686 hectares. Na prática, são 26.222 hectares queimados a mais em apenas um ano.
A preocupação do governo aumenta diante das projeções climáticas para os próximos meses. Segundo o cenário apresentado durante o lançamento do gabinete, há probabilidade superior a 90% de consolidação de um El Niño de intensidade forte a muito forte no segundo semestre de 2026.
"A nossa preocupação é com o super El Niño, que terá um impacto muito significativo caso se concretize. E o gabinete visa, de forma unida, encontrar soluções que minimizem os efeitos no Estado", afirmou o governador Daniel Vilela.
Coordenado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO), por meio do Comando de Operações de Defesa Civil (Codec), o gabinete terá comando unificado e contará com ferramentas como inteligência artificial, imagens de satélite, drones e geoprocessamento.
A tecnologia será utilizada para identificar focos de incêndio e outras situações críticas com antecedência, permitindo a mobilização mais rápida das equipes. Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros, Washington Luiz Vaz Júnior, seis bases já foram descentralizadas para o Nordeste goiano, região que concentra o maior foco de incêndios.
"Estamos atuando em tempo real. Conseguimos identificar um foco de incêndio e, ao mesmo tempo, montar equipes. Descentralizamos e montamos seis bases no Nordeste goiano, onde está o maior foco de incêndio. Diariamente, vamos divulgar o que está acontecendo", explicou.
Além das queimadas, o Estado acompanha com preocupação a situação da água. Dados do Monitor de Secas apontam que 151 municípios goianos enfrentam redução contínua das chuvas e repetição de períodos de estiagem. Desses, 51 aparecem constantemente em situações de crise hídrica e são considerados prioritários.
Entre os principais riscos associados ao cenário climático estão o atraso na recarga hídrica do solo, irregularidade das chuvas, redução dos mananciais, prejuízos à produção agropecuária e crescimento dos casos de doenças respiratórias.
A rede estadual de saúde também entrou em estado de preparação. O governo estabeleceu como meta ampliar em 30% os estoques considerados estratégicos para enfrentar os impactos da estiagem e das queimadas.
"As unidades estaduais estão em operação com suprimentos regulares e colocamos como indicador aumentar em 30% o estoque estratégico de oxigênio, broncodilatadores e soro", disse o secretário estadual da Saúde, Rasível Santos.
Na área ambiental, a estratégia inclui reforço dos equipamentos, preparação da estrutura e capacitação das equipes. Segundo a secretária de Meio Ambiente, Andréa Vulcanis, a ampliação da rede de monitoramento permitirá acompanhar mais de perto o comportamento dos recursos hídricos.
"Ampliamos em cerca de mil por cento a rede hidrológica, e isso tudo traz informações importantes para o monitoramento e para o gabinete", afirmou.
Sala de Situação vai acompanhar crise diariamente
Criado por decreto, o Gabinete de Ações Integradas terá caráter executivo e deliberativo, com poder para integrar decisões, equipes, equipamentos e recursos logísticos durante o período crítico.
Ao todo, 20 setores integram o Plano de Contingência Estadual, entre órgãos públicos e instituições parceiras. Participam Agehab, Agrodefesa, Corpo de Bombeiros, Ministério Público de Goiás, Equatorial, Goinfra, polícias Civil, Militar e Penal, Saneago, Faeg e secretarias estaduais.
Uma Sala de Situação será instalada no Codec, em Goiânia. O espaço deverá reunir diariamente informações sobre focos de calor, previsões meteorológicas, níveis dos reservatórios e operações realizadas no Estado.
A força-tarefa funcionará em três frentes. A primeira será preventiva e inclui o mapeamento dos municípios com abastecimento de água comprometido, identificação de populações vulneráveis ao calor, planejamento para possíveis crises hídricas e emissão de alertas sobre baixa umidade.
A segunda frente será acionada nas emergências, com combate direto aos incêndios, fornecimento de água potável, patrulhamento de parques e áreas de preservação permanente e reforço dos atendimentos na rede de saúde.
Depois da emergência, começa a terceira etapa: a recuperação das regiões atingidas. O planejamento prevê restauração de redes elétricas, recuperação ambiental, conservação do solo e apoio socioeconômico às populações afetadas.

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