Rachas, ofensas e disputa por herança política expõem crise no bolsonarismo
Em meio ao agravamento da situação jurídica de Jair Bolsonaro e à proximidade do calendário eleitoral, aliados, familiares e líderes religiosos ligados ao ex-presidente protagonizam embates públicos

As primeiras semanas do ano eleitoral expuseram fissuras até então contidas no bolsonarismo. Atritos entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ganharam as redes sociais e os bastidores de Brasília, com trocas públicas de ofensas, disputas por protagonismo e divergências sobre os rumos do campo político de direita.
Os episódios se intensificaram na mesma semana em que Bolsonaro foi transferido para a chamada “Papudinha”, em Brasília, após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto a situação jurídica do ex-presidente se agravava, figuras centrais do bolsonarismo passaram a protagonizar embates abertos, sinalizando uma disputa antecipada pelo espólio político do grupo.
Entre os personagens no centro das controvérsias estão a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos.
Evangélicos em rota de colisão
Um dos conflitos mais ruidosos envolveu dois nomes influentes da ala evangélica. Silas Malafaia cobrou publicamente explicações de Damares após a senadora afirmar, no domingo (11), que “grandes igrejas” estariam envolvidas em um esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Sem citar nomes, Damares levantou suspeitas que rapidamente repercutiram. Malafaia reagiu com dureza e afirmou que, sem a divulgação dos envolvidos, a parlamentar não passaria de uma “leviana linguarud@”.
A resposta veio em seguida. Damares afirmou que os documentos são públicos e citou listas com nomes de pastores e igrejas, entre eles o pastor André Valadão. Após a divulgação, Malafaia acusou a senadora de tentar obter “vantagem política” com o episódio.
Michelle no centro das tensões
A ex-primeira-dama também esteve envolvida em mais de uma polêmica. A mais recente foi revelada pela coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles: um encontro entre Michelle Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes, na quinta-feira (15). Na reunião, ela pediu a transferência de Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal (PF) para a pr1sã0 domiciliar — solicitação que não foi atendida. Horas depois, Moraes determinou a ida do ex-presidente para a Papudinha.
O encontro gerou desconforto entre bolsonaristas. O vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), que mantém uma relação tensa com a madrasta, publicou uma mensagem interpretada como indireta. Sem citar nomes, disse ter “convicção absoluta” de que o objetivo de determinados movimentos não seria “medir forças com os filhos”, mas com o próprio ex-presidente.
“O que antes se insinuava nos bastidores agora se revela com fatos escancarados”, escreveu.
Dias antes, Michelle já havia entrado em confronto com Allan dos Santos. O estopim foi uma curtida da ex-primeira-dama em um comentário de Cristiane Freitas, esposa do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendendo que o “Brasil precisa de um novo CEO”.
Allan sugeriu que Michelle estaria sinalizando apoio a uma eventual candidatura de Tarcísio à Presidência. Em resposta, ela divulgou uma carta rebatendo as acusações e afirmou que o blogueiro desconhece as conversas e os planos do casal Bolsonaro. Chegou a chamá-lo de “Allan dos demôni0s”.
No texto, disse que as falas do blogueiro não passariam de “bravatas, achismos e maledicências”, servindo como “boneco de ventríloquo de canalh@s”.
Pressão jurídica e disputa por liderança
As intrigas se tornaram mais evidentes à medida que a situação jurídica de Bolsonaro avançou. Em julho, ele passou a usar tornozeleira eletrônica e teve restrições de circulação, após a PF apontar articulações internacionais contra a Justiça brasileira. Em agosto, Moraes determinou a pr1sã0 domiciliar por descumprimento de medidas cautelares.
Em setembro, a Primeira Turma do STF condenou o ex-presidente a 27 anos e três meses de pr1sã0 por tentativa de g0lp3 de Estado. Em novembro, após tentar danificar a tornozeleira eletrônica, Bolsonaro foi preso e, com o trânsito em julgado, passou a cumprir pena em regime fechado. Na quinta-feira (15), foi transferido para a Papudinha após queixas da família sobre as condições do local onde estava detido.
Filhos e aliados também entram na briga
Os filhos de Bolsonaro também protagonizaram embates públicos. Em novembro, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) acusou o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) de querer “se livrar” do ex-presidente, mantendo capital político sem prestar contas ao pai.
Não foi a primeira crítica. Meses antes, Eduardo já havia atacado Nikolas em conversa com Allan dos Santos, criticando interações do deputado com uma influencer conhecida como “Baianinha Intergaláctica”.
Em dezembro, os conflitos entre Michelle e os enteados vieram à tona após críticas da ex-primeira-dama à aproximação do PL no Ceará com Ciro Gomes (PSDB). Flávio Bolsonaro classificou a fala como “autoritária e constrangedora”, posição endossada por Carlos e Eduardo.
Michelle reagiu e afirmou que jamais poderia apoiar “um homem que tanto mal causou” à sua família, em referência às críticas públicas feitas por Ciro a Bolsonaro.
Tarcísio sob desconfiança
Outro alvo recorrente das críticas é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Cotado para disputar a Presidência em 2026, ele passou a ser pressionado a declarar apoio explícito a Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai como possível candidato ao Planalto.
O desconforto aumentou após a postagem da esposa de Tarcísio pedindo um “CEO para o Brasil”. Diante da reação negativa, o governador afirmou que se tratava apenas de um “desabafo” e disse que Flávio é “um grande nome” e seu candidato.
Carlos Bolsonaro ironizou a explicação. Ao responder a um internauta que cobrava uma declaração pública em vídeo, escreveu: “Será? Vai ver que é tudo coincidência”.
O conjunto de episódios evidencia um movimento de fragmentação em um campo político que, por anos, se sustentou na imagem de unidade em torno de Jair Bolsonaro — agora enfraquecida pela pressão judicial e pela antecipação da disputa eleitoral.
Com informações do Metrópoles

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