Câmara abre pedido de impeachment contra prefeito goiano acusado de "abandonar cidade"
Votação histórica terminou empatada, foi decidida pelo presidente da Câmara e escancarou o desgaste da gestão Iris Parreira em meio a denúncias de caos administrativo, rombo milionário e pressão popular

Pela primeira vez em 78 anos de emancipação, Santa Helena de Goiás teve aprovado pela Câmara Municipal um pedido de admissibilidade para abertura de processo de impeachment contra um prefeito. O alvo é Iris Parreira (MDB), que agora passa a enfrentar oficialmente uma comissão processante em meio a uma das maiores crises políticas e administrativas já vistas no município.
Defesa do gestor alega perseguição política e diz que crise financeira já existia antes da atual administração.
A decisão foi tomada na noite desta quinta-feira (7), durante uma sessão marcada por forte tensão política, plenário lotado, presença massiva de servidores comissionados da prefeitura e necessidade de atuação da Polícia Militar para garantir a segurança no local.
A votação terminou empatada em 6 a 6 e precisou ser decidida pelo presidente da Câmara, Aduil Júnior, que usou o chamado voto de minerva para autorizar a abertura do processo.
“O pedido de instauração da cassação do mandato foi protocolado pela população na Câmara Municipal. Nós votamos pela admissibilidade do documento, ou seja, pela instauração da comissão processante, que agora vai analisar os fatos e os documentos apresentados”, afirmou o presidente da Casa.
Aduil classificou o episódio como um momento inédito para Santa Helena.
“Foi um dia muito marcante, nunca visto em Santa Helena. Pela primeira vez na história da cidade, foi instaurado um pedido de cassação de prefeito”, declarou.
Segundo ele, o ambiente da sessão foi de forte pressão política e tensão constante.
“A sessão foi bem conturbada, porque havia uma presença maciça de comissionados da prefeitura. Inclusive, foi necessária a presença da Polícia Militar”, relatou.
O presidente da Câmara afirmou ainda que votou favoravelmente à abertura do processo sob argumento de garantir transparência à população.
“Eu entendi que a população precisava ter acesso aos fatos, pela transparência e pela publicidade. Por isso votei favorável à instauração da comissão processante”, disse.
Com a admissibilidade aprovada, Iris Parreira será oficialmente intimado e terá cinco dias para apresentar defesa prévia. A comissão processante terá até 90 dias para concluir os trabalhos e emitir um relatório final, que depois será submetido novamente ao plenário da Câmara.
O colegiado será presidido pelo vereador Simão Mota, terá como relatora a vereadora Doutora Cidinha e contará ainda com Guilherme Guedes como membro.
A abertura do processo ocorre após dias de forte desgaste político e manifestações populares contra a gestão municipal. Na última segunda-feira (4), uma sessão da Câmara já havia sido tomada por moradores revoltados com a situação da cidade.
Com cartazes, faixas e palavras de ordem, a população criticou duramente a administração municipal e denunciou problemas considerados graves em áreas essenciais, como saúde, educação e coleta de lixo.
Frases como “Fiscalizar é dever. Cobrar é direito!” dominaram o plenário durante os protestos. Muitos moradores afirmaram que nunca viram Santa Helena em situação tão crítica.
Além das cobranças, vereadores também apresentaram um pedido de abertura de CPI para investigar possíveis irregularidades cometidas pelo Executivo municipal.
O cenário de crise se agravou após a própria prefeitura reconhecer dificuldades financeiras severas e decretar situação de falência administrativa, apontando um déficit estimado em R$ 53 milhões.
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Enquanto o embate político crescia, os problemas da cidade passaram a atingir diretamente a população. Moradores convivem com reclamações sobre lixo acumulado, ruas esburacadas e fragilidade no atendimento da rede pública de saúde.
Também houve denúncias de médicos trabalhando sem receber salários, além de protestos de monitoras de creches, que iniciaram mobilizações cobrando pagamento do piso salarial.
Em meio ao avanço das críticas, Iris Parreira reagiu publicamente durante entrevista à Rádio Paz Brasil e elevou o tom contra adversários políticos e vereadores.
“Não precisa gostar de mim não. Quem tem que gostar de mim é a minha mulher, só, e meu filho. O resto não precisa gostar de mim não, mas faz as coisas acontecerem aqui dentro de Santa Helena”, afirmou.
Na sequência, o prefeito criticou diretamente parlamentares que defendem investigações e falam em cassação.
“Agora ficar em rede social falando que a prefeitura está quebrada, ‘vou cassar o prefeito’. Cassar o que, rapaz? Pega a minha história e pega a desses vereadores malandros que estão falando de mim. Quem é a história que tem dentro de Santa Helena? Quem que é homem que trabalha nessa p*** aqui? Tem que me respeitar, rapaz!”, declarou.
As falas repercutiram negativamente nos bastidores políticos e ampliaram ainda mais o desgaste entre Executivo e Legislativo.
Aliados do prefeito, porém, alegam que Iris Parreira enfrenta uma crise financeira herdada de administrações anteriores e afirmam que parte das movimentações por impeachment teria motivação política. A defesa do gestor também sustenta que a abertura da comissão não representa condenação e que o processo ainda passará por análise técnica e apresentação de provas.
Enquanto o processo avança dentro da Câmara, moradores seguem cobrando respostas rápidas para problemas considerados urgentes no município. Entre acusações, embates políticos e troca de críticas, Santa Helena agora vive um dos momentos mais turbulentos de sua história recente.
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